A maldição de Arbon. Parte 18
XXI.
Com um grito, Lissa despertou de seu aparente torpor e viu-se frente a
frente com o líder do culto. Ele recolheu a mão que estendera em sua direção e,
prudente, aguardou. Uma gélida onda de frio estava entre eles e o ar parecia
oferecer resistência até mesmo à respiração, mas o sacerdote não parecia
afetado.
— Está pronta, Lissa? — disse tenebrosa a voz de Nélius, como se saísse
das profundezas de um poço.
— Para... para quê, senhor? — gaguejou ela e de sua boca saiu uma névoa
fina.
— Não há porquê delongar-nos mais nessa questão. — respondeu Nélius —
Você pensa que foi escolhida pelos Kamms, eu compreendo. Estes elfos a
manipularam e estão fazendo com que sua mente se nuble e abandone os princípios
de nossa fé. Você foi de fato escolhida pelos Kamms desde seu nascimento para que
cumprisse seus princípios e protegesse o seu povo, oferecendo sua vida quando
eles a requisitassem. Ou já se esqueceu de seu juramento? Seus pais se
orgulharam de entregá-la. Imagine a vergonha que devem estar sentindo agora...
Não gostaria de se desculpar com eles? E quanto ao povo de Arbon, que conta com
sua oferenda para que os Kamms voltem a olhar por eles e para que parem esse
insanos ataques? Não sente a dor deles? Não vê o quanto seu povo, seus pais
sofrem? Tudo isso por sua causa, Lissa, e por sua negativa. Entregue-se agora e
eles não mais sofrerão. Cumpra o seu dever, criança. Eu mesmo consagrarei seu
sacrifício e garantirei que seja aceito. Essa é uma honra que lhe ofereço!
O semblante do sacerdote estava transformado, parecia um monstro aos olhos
de Lissa. Seus olhos estavam fundos e sua boca se abria grandemente, exibindo
dentes de pontas afinadas, os lábios estavam escuros e úmidos. Do meio dos
vincos de sua testa brotavam estranhas rachaduras. A menina o fitava de olhos
arregalados.
— Sacerdote-chefe... Senhor Nélius... — gaguejou a meio-elfa e sua voz se
alterou, assumindo um toque de suavidade e frieza que ela nunca empregara, e o
medo desapareceu — Há algo que o senhor pode fazer pessoalmente pelo povo de
Arbon. Se é tão grande o seu desejo de conter esses ataques e realizar a
vontade dos Kamms, ouça o que eles têm a dizer-lhe.
Nélius tossiu e esperou.
— Como dádiva maior de nosso culto está a vida dos sacerdotes. —
continuou a meio-elfa — E a eles é dado o dever de cumprir com a consagração
das oferendas. O senhor vem cumprindo com tudo que lhe foi designado e muito se
regozijam os Kamms por sua devoção. Como um mestre da tradição, deve saber que
consta que, em momentos de extrema necessidade, podem os fiéis sacerdotes darem
sua vida pela causa.
O olhar de Nélius se transfigurou novamente, um misto de compreensão e
medo lampejaram por um momento.
— Não! — ele contestou.
— O que digo está correto, sacerdote Ari? — prosseguiu a voz serena da meio-elfa,
dirigindo-se ao outro.
Ari engoliu em seco. Muito assustado, respondeu apenas:
— S... sim.
— Isso é... — começou o sacerdote-chefe, mas a imperiosa e suave voz de
Lissa o interrompeu:
— Sacerdote Nélius, como um fiel devoto, estaria o senhor disposto a
oferecer-se, caso fosse chamado, para salvar o povo de Arbon do caos e agradar
os Kamms poupando esta criança, que, por medo, se recusa?
A boca de Nélius se abriu e, em seguida, se fechou. Ele respirou fundo e
então falou:
— Vejo que ousa desafiar não só a vontade dos Kamms, mas
também os preceitos de nossa fé, invertendo responsabilidades... Mas, cara
Lissa, nada disso é necessário, pois, como servo mais fiel e mestre das
tradições, conheço todos os ensinamentos da doutrina e sempre me coloquei à
disposição dos Kamms, no entanto, não recebi tal chamado. O chamado veio para
você e eles colocaram em meu coração o propósito de cumpri-lo, por isso
compreenderá que deve fazê-lo de coração aberto para que possa ser aceita como
oferenda. Como representante máximo dos Kamms em Arbon e como único autorizado
a falar por eles, conclamo sua benevolência para que a aceitem, mesmo após ter
se recusado e fugido, e a perdoem de suas culpas, tornando-a novamente pura
para cumprir o que lhe foi determinado. Agora, minha cara Lissa, reconhece suas
culpas e aceita cumprir seu papel? — disse ele dando mais um passo em direção a
ela.
— Meu papel se modificou, caro senhor chefe Nélius, pela bondade dos
Kamms. — disse ela revestida de inimaginável calma — E peço agora que o
sacerdote Ari proclame a vontade dos Kamms.
Ari, trêmulo, avançou devagar. O suor escorria por seu rosto e suas mãos
estavam arroxeadas pelo frio, mas, quando falou, sua voz estava equilibrada:
— Sua cegueira conclama os Kamms a elegerem outro devoto para falar em
seu lugar, chefe Nélius, e, como único disponível no momento, me prontifico a
atendê-los. Foi pedido o seu sacrifício, portanto resta-lhe dizer qual é sua
resposta para os Kamms.
— Como ousa? — retrucou Nélius e, em seguida, um sorriso frio tomou seu
rosto monstruoso — Pagarão por sua afronta!
Assim, o sacerdote-chefe avançou sobre Lissa. A criança não conseguiu ver
de onde ele sacara o punhal que vinha de encontro ao seu coração. Sem forças
para mover-se, ela fechou os olhos e esperou pelo golpe fatal. Viu, porém, ao
abri-los, não a morte que esperava, mas o corpo do menino Kim caído diante de
si, esfaqueado pelas costas pelo punhal do sacerdote após saltar com a intenção
de protegê-la. O sangue respingara pela túnica alva do chefe, assim como
escorria por sua mão, que largara de imediato a arma quando ela se cravara no
alvo equivocado. O líquido espesso espirrara também no rosto de Lissa que
desfalecera como se ferida ela própria.
— Não! — gritou a menina em meio às lágrimas e abaixou-se para tentar
socorrer o pequeno companheiro.
Continua...
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