Pactos. Entre justos e pecadores. Parte 2
VII.
Escapar de Lakar não foi tão difícil quanto se poderia esperar, embora
sobreviver ao caminho rumo ao Templo ainda viesse a se mostrar uma tarefa
realmente árdua.
Ao amanhecer, Espartakus ia longe na trilha ao norte de Lakar, rumando
para a Cordilheira do Espumante, após ter cruzado parte das plantações de
Tívan. Seguira apressado, como se tivesse lobos em seu encalço ou se sua
resolução pudesse enfraquecer caso se delongasse, e percorrera um longo caminho
rumo ao norte até interromper a marcha, pois, inevitavelmente, teve de parar
para recuperar o fôlego.
Como previra, assim que pôde pensar, mesmo com a mente agitada, começou a
vacilar entre o desejo de voltar e a resolução de seguir adiante. Pensava que
sua família poderia ser submetida a muitos castigos caso seus algozes percebessem
sua fuga, embora não acreditasse que pudessem dar por sua falta.
Mas respirar o ar da liberdade fez muito bem a ele e logo abandonou as
ideias negativas. Fixou a resolução de que o sofrimento de seus parentes e
amigos deveria ser interrompido logo e que o Templo seria sua melhor opção.
Certamente os clérigos fariam os invasores pagarem por seus crimes contra o
pacífico e devoto povo de Lakar.
Desse modo, convenceu-se de que seria de pouca utilidade se voltasse para
casa naquele momento e que o melhor a fazer era, de fato, procurar os
mensageiros do Único, mesmo que não conhecesse com exatidão a força de seus
inimigos, nem tampouco a dos clérigos.
Mas, mesmo com toda a disposição, Espartakus tinha uma incógnita em seu
caminho. Nunca estivera no Templo do Único, nem sabia ao certo onde se situava
ou sequer se poderia encontrá-lo, mas faria da jornada de busca o objetivo de
sua existência.
Assim, ele dirigiu a vista em direção a Lakar, um ponto longínquo no sul.
Depois, dando as costas para o lugar onde se situava o pequeno vilarejo, tornou
à estrada rumo às montanhas.
E foi então que os perigos começaram.
VIII.
Após deixar para trás o terreno de plantio e subir um pequeno morro,
enquanto bebia água do cantil, Espartakus escutou um leve movimento à sua
direita e percebeu que algo se aproximava. Temeu que houvesse sido descoberto
e, sem possibilidade de se esconder, apenas abaixou-se e manteve-se quieto,
esperando.
Não se tratava, porém, dos invasores, nem dos camponeses de Lakar, mas de
um grupo de formigas gigantes que se movia em velocidade. Ele se surpreendeu
com a habilidade que aquelas patas enormes e os corpos troncudos apresentavam
quando estavam em movimento. E, indeciso, esperou, sem saber ao certo o que
fazer. Depois, como ainda se aproximassem, pôs-se a correr.
Mesmo após se voltar, a imagem dos vários e enormes olhos negros daquelas
criaturas avermelhadas continuava em sua mente, e o leve som de suas passadas,
em seu encalço.
Chegou um momento em que teve de parar e enfrentá-las, pois elas o
seguiam incansáveis e ele já sentia o peso da corrida.
Empunhou a velha machadinha de cortar lenha e desferiu alguns golpes com
ela, desviando-se das picadas salivantes com que as formigas tentavam
abocanhá-lo. Elas possuíam quase um terço de seu tamanho e atacavam suas pernas
enquanto ele atingia as cabeças, decepando-as. Com a mão esquerda, desferia
golpes com o martelo de ferreiro e esmagava patas ou o que estivesse pelo
caminho.
Depois de fazer cair algumas formigas e imaginando que não teria forças
para fazer caírem todas, percebeu que as outras recuavam, abrindo caminho. Mas
foi muito breve o tempo para que pensasse que fugiam de sua investida, pois
logo avistou uma enorme e barriguda formiga, praticamente do seu tamanho e com
as presas pendendo da mandíbula, agitadas no movimento incessante de morder o
vento. As antenas se elevavam para o alto captando vibrações de todos os lados.
E os olhos pareciam cegos de tão embaciados. As patas se prendiam firmemente ao
chão, vindo ao seu encontro.
As demais pareciam deixar que esta assumisse a dianteira e esperavam. A
grandalhona investiu contra Espartakus com tamanha agilidade que abocanhou a
mão da machadinha em um só movimento. Em meio à dor, ele se livrou dela em um
golpe com a canhota, acertando um dos olhos negros com o martelo. Ela soltou
uma golfada de fluidos sobre ele, que só então pôde saltar para o lado e se
recompor.
Mesmo ferido, avançou novamente e atingiu uma pata da criatura com a
machadinha enquanto ela não reagia. A formiga gigante tentou acertar outra
mordida, mas suas presas se fecharam no vento e Espartakus desferiu outro golpe
com a canhota. Ela jogou o corpo troncudo para cima dele em um movimento
desequilibrado e o atingiu, embora sem causar muito dano. Ele cambaleou, mas se
recompôs, então deu o golpe final com a destra ensanguentada.
E o rapaz não esperou para saber o que o resto do bando faria. Disparou
na trilha que traçara e tratou de se afastar logo dali.
IX.
As formigas não vieram ou ele conseguiu se distanciar delas.
Depois de tratar de suas feridas, ficou naquela trilha por quatro dias,
seguindo em linha para o norte e tendo as montanhas em seu horizonte durante
todo o trajeto, até alcançar uma região de planaltos e desviar-se para o leste.
Andou por três dias em um vale pedregoso até encontrar a margem oeste do Rio
Vermelho, já penetrando na sombra das primeiras montanhas mais altas da
Cordilheira do Espumante.
Pôs-se a seguir o curso do rio, embrenhando-se mais fundo nas rochosas
trilhas que avançavam do pé da Cordilheira para o interior da cadeia
montanhosa. As montanhas abafaram um pouco a circulação do vento gelado, mas a
presença do rio tornava o ar úmido e obrigava o rapaz a usar uma manta grossa.
Ele também usava um capuz para se proteger do sereno das manhãs e dos
entardeceres enfumaçados enquanto fitava a névoa fina que se desprendia das
águas do Vermelho.
Em meio à névoa, avistou, certo dia, um movimento nas águas do rio. Uma
enorme lagarta acinzentada, de corpo úmido e pegajoso, avançou pela margem em
direção ao viajante. Ele comia um pedaço de pão molhado em sopa de batatas e
descansava da longa marcha que empreendera naquele dia. Levantou com um pulo e
afastou-se da lagarta silenciosa antes que ela o abocanhasse.
A criatura, porém, derramou sua caçarola de sopa com o movimento
desengonçado e começou a tomar o caldo que se esparramara pelo chão. Irritado,
ao invés de fugir, Espartakus a atacou e picou partes de seu corpo antes que
ela se voltasse, em um último esforço, para acertá-lo. Mas a lagarta não
sobreviveu para sustentar a investida e, felizmente, daquela Espartakus escapou
ileso.
Recolheu depressa suas coisas e deixou, cansado, aquele lugar.
Depois de outros três dias de caminhada, o Rio Vermelho adentrou a rocha
e não foi mais possível a Espartakus acompanhar seu curso. Ele poderia ter se
sentido feliz por ter se visto livre do rio e das criaturas horríveis que ele
cuspia todas as noites desde que começara a adentrar a montanha, não fosse o
fato de o terreno ter-se inclinado e de o rapaz ter sido obrigado a começar uma
difícil e perigosa escalada.
Não havia mais trilhas, e as plantas comestíveis e os animais de caça
rareavam. Tampouco restavam alimentos dos que trouxera de casa. O vento que
encontrava caminho por entre a rocha produzia ecos assustadores durante a noite
e gelava a pele de Espartakus. Dormir à beira dos precipícios e sobre a pedra
gélida estava fora de cogitação e, assim, o rapaz tinha de lidar também com o
cansaço da jornada.
X.
No décimo primeiro dia de marcha, após uma difícil subida e uma descida
íngreme, ele avistou, em um topo adiante, os contornos do que julgava ser uma
torre negra, embaçada pela névoa matinal, entalhada no solo da montanha. Supôs
ser aquele o Templo do Deus Único. Apressou o passo e atravessou o vale cheio
de esperança. Escutou barulho de água e, a sua direita, encontrou um lago do
qual bebeu grande quantidade, pois percebeu que estava com muita sede.
À sua frente, a rocha se dobrava de muitos aspectos, avançando para fora
da montanha, sobre o vale, e produzindo amplos pedestais que ele não sabia como
podiam permanecer se equilibrando sem tombar. No fundo do vale, uma espécie de
portal, de onde vinha uma densa escuridão, se abria para o interior da rocha, e
várias trilhas se formavam a partir daquele ponto, subindo para a direita e
para a esquerda. Ele aproximou-se da abertura e a encarou. Poderia ser um
caminho, não fosse tão escuro. As trilhas laterais pareciam dar voltas que
subiam sempre, mas não era possível divisar o ponto para o qual conduziam.
Espartakus teria de escolher um caminho. Observando com ainda mais
atenção, notou que a trilha da direita recuava, em uma ponta, e passava sobre o
lago. Ela podia conduzir ao nascedouro do Vermelho. Com essa esperança, tomou o
caminho da direita e pôs-se a subir.
Ao amanhecer do décimo segundo dia, após uma nova escalada, o rapaz
percebeu que a rocha estava úmida e marejava água em alguns pontos ao longo do
caminho. Sentiu que fizera a escolha certa e a vista logo o recompensou com o
sol morno da manhã acariciando um gramado amplo no qual cresciam algumas
árvores, produzindo sombra, flores e frutos. Seus pés tocaram o solo macio
enquanto, adiante, ele fitava um terreno aplainado sobre o qual se erguia uma
construção escura cercada por muralhas que nasciam no seio da terra. Era uma
torre muito alta, cheia de janelas e sacadas. O portão frontal, de aço pesado,
se voltava para o sul e, àquela hora, estava cerrado.
XI.
Espartakus avançou determinado e alcançou rapidamente as muralhas. Não
encontrou, porém, sinos ou aldravas, de modo que não pôde anunciar sua chegada.
Testou o portão e constatou que estava trancado. Neste momento, uma pequena
janela alta se abriu, produzindo um chiado metálico, e um sujeito carrancudo o
encarou lá de cima. Espartakus o olhou de volta e cumprimentou:
— Bom dia! — disse de modo cortês. — Este é o Templo Sagrado do Deus
Único?
— Sim. — respondeu o outro apenas, continuando a analisar o forasteiro.
— Eu gostaria de falar com o chefe do Templo. Vim, pois preciso de ajuda.
— arriscou Espartakus diante do silêncio prolongado do outro.
— Que motivo o leva a recorrer aos clérigos, camponês? — inquiriu ele.
— Vim em busca de ajuda para mim e para meu povo. — disse Espartakus. —
Meu vilarejo foi atacado há cerca de dois meses por pessoas terríveis que
escravizaram o povo. Não tivemos forças para combatê-los e nem nos restaram
aliados. O povo está sendo explorado e já nos falta comida... Os invasores
enviaram sua pilhagem inicial de suprimentos e armas para outro lugar... Com
quem eu poderia tratar do assunto?
— Talvez com Dúkar, o chefe do Conselho. — disse o outro devagar enquanto
refletia — Quem devo anunciar?
— Sou Espartakus, de Lakar, filho de Espartakus, o ferreiro, de Duegom.
— Espere aí. Vou verificar e volto com uma resposta. — respondeu o outro,
fechando a janela em seguida.
O sujeito demorou tanto que Espartakus pensou que ele jamais voltaria. O
homem abriu a janelinha com a mesma cara fechada de antes e fitou-o de modo
frio ao anunciar:
— O chefe Dúkar não irá recebê-lo. Suas obrigações o ocupam demasiado.
— O quê? — Espartakus surpreendeu-se, tentando processar as palavras do
vigia. Não poderia esperar por aquilo. Então se recompôs e disse: — Eu poderia
aguardar... Talvez até amanhã, se fosse o caso...
— Seus assuntos terão de ser resolvidos em outro lugar, forasteiro. —
tornou o homem.
— Não há outros no Templo que poderiam me ouvir? — insistiu Espartakus
com pouca esperança.
— Seus assuntos terão de ser resolvidos em outro... — repetiu o sujeito.
— Ora! — Espartakus perdeu a paciência. — Então nenhum dos seus chefes se
importa que o vilarejo de Lakar, que regularmente realiza suas oferendas,
esteja sitiado? E que pessoas horríveis estejam espalhando o caos nessa região
e massacrando os devotos? E que pessoas estejam morrendo debaixo de seus pés? E
que...
— Os chefes têm assuntos mais sérios para resolver... — o outro
interrompeu.
— E sequer podem ouvir o que tenho a dizer?! — bufou Espartakus.
— O chefe Dúkar deseja que o Único o acompanhe em sua jornada. —
sentenciou o sujeito, fechando, em seguida, a janela.
XII.
Espartakus abriu a boca e a fechou, ainda perplexo. Não contava com tal
recepção. Imaginava que não seria tão fácil conseguir alguma ajuda, que talvez
tivesse de argumentar longamente e até mesmo oferecer algo valioso, mas jamais
imaginara que seria expulso do portão. Ele não tinha a quem mais recorrer e sua
única esperança acabara de ser arrancada.
Ficou parado diante do portão sem saber o que fazer, pensando se teria
feito algo errado que pudesse ter provocado tal recepção, refletindo se acaso o
vigia poderia simplesmente estar agindo por conta própria ou se os clérigos
teriam coisas tão sérias e urgentes que lhe impedissem de acolher um desvalido
como ele. Evitava deixar-se crer na enorme má vontade dos clérigos e na total
incompatibilidade entre tal atitude e os preceitos do Único. Deveria existir
uma explicação.
O rapaz olhava, ora para o lado do Templo, ora para o sul, imaginando o
que fazer em seguida e em que acreditar. Ocorreu-lhe uma ideia e, não vendo
outras formas de ajudar seu povo e de manter sua crença, decidiu colocá-la em
prática.
uai... Espartakus...não pode se deixar por vencido.....
ResponderExcluir...a espera do próximo capitulo
Volte aqui na semana que vem para conferir o plano que ele colocará em prática!
ResponderExcluirEstou torcendo por ele ;)
Que legal! uma ótima história!
ResponderExcluirObrigada! Que bom que gostou. Volte em breve para aproveitar o restante da aventura! :)
ResponderExcluirFim do Segundo ato. Acho que ele deve invadir o templo e descobrir por ele mesmo a verdade. Creio que em seu caminho deva encontrar-se com um professor de esgrima ou algo do tipo e desenvolver suas habilidades e tornar-se um guerreiro. Daí sim poderá salvar seu povo. Até lá, muitas aventuras nos esperam...
ResponderExcluirUhm... Será que Espartakus encontrará um mestre e se tornará um guerreiro? Continue acompanhando para ver até que ponto ele está disposto a se arriscar para ajudar seu povo. Confira o terceiro ato que já está no ar! :)
ExcluirOi Élida, li as duas partes e gostei. Vamos ver agora qual será o plano do Espartakus.
ResponderExcluirOlá, Moysés! Obrigada pela leitura. :) A continuação já está no ar. Dê um pulinho lá e veja se o plano dele vai te surpreender.
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